O vírus que nos fez reapreciar a moda
- martaamendes

- Mar 28, 2021
- 3 min read
A reação da indústria à pandemia e a antecipada revolução na indústria da moda
Voltamos a fevereiro deste ano e Milão está de repente no epicentro do primeiro surto ocidental da Covid-19, no momento em que uma das mais famosas semanas de moda feminina, que acontece na cidade duas vezes por ano, está a chegar ao fim. A indústria da moda é uma das primeiras a sentir o impacto de um vírus desconhecido, com o rápido afastamento dos compradores e editores vindos do mercado lucrativo da Ásia.
Regressando ao presente, o cenário global aponta para que milhões de operários fabris tenham perdido o seu emprego desde o início da pandemia, sem acesso a redes de apoio social e financeiro que os ajudem a lidar com o período de crise. Numa tentativa de apoiar a Moda americana, o Vogue Fashion Fund e o CFDA criaram uma iniciativa, de nome A Common Thread, com o objetivo de angariar fundos que suportem a indústria.
Qualquer iniciativa é bem recebida, mas o impacto da pandemia está lá. Neste momento, sobrevivem apenas aqueles que se consigam adaptar e, por isso, esta pode ser, em todo o caso, uma oportunidade de reinvenção e de reavaliar o modo como opera, não só a Semana da Moda, mas a indústria em geral.
Na última estação, foram muitos os que optaram por não mostrar as suas coleções, mas outros, como Giorgio Armani, por exemplo, optaram por um live-stream dos seus desfiles, uma opção inovadora que contorna a necessidade de uma audiência física. Tendo em conta este tipo de iniciativas, uma resposta viável ao momento atual seria a criação de uma plataforma digital específica para que os designers possam mostrar as suas coleções, o que permite que o modelo atual continue a funcionar com a cobertura das coleções pela imprensa e compra remota dos produtos pelos revendedores, mas é uma resposta sem garantias de sucesso. O modelo de plataforma digital pode ser funcional para determinado grupo de marcas, mas captar os pormenores do artesanato apresentado por várias Casas de Luxo é uma tarefa complicada. Nestes casos, uma alternativa poderia ser a apresentação via showroom. Não obstante, de um modo ou outro, a solução última irá sempre de encontro à capacidade de colaborar com a tecnologia.
Encontramos agora as mais variadas iniciativas, vindas de marcas com a confiança necessária para serem pioneiras da mudança. Existem influencers que são avatares digitais, temos o exemplo de Lil Miquela ou Noonoouri. Roupa digital, isto é, coleções criadas em modelo 3D que podem ser colocadas por cima de imagens pessoais. Desfiles de moda realizados por realidade aumentada e virtual, e certamente não ficaremos por aqui.
É certo que a pandemia dará, pelo menos, lugar a uma revolução na indústria de que há muito se falava, mas que não avançava porque o modelo anterior ainda funcionava. Agora, a indústria automatizada será provavelmente substituída por uma indústria cada vez mais sustentável. O fast fashion começa a deixar de funcionar para o próprio consumidor. Tendo isso em conta, as principais consequências desta revolução serão a elevação dos valores em torno da sustentabilidade, de onde deriva um maior questionamento em relação à cultura materialista.
Em suma, o mundo tinha tanta oferta que a moda estava a ser desvalorizada. As temporadas começam muito cedo e obrigam a uma constante renovação de coleções, por isso ao longo de seis meses a emoção vai desaparecendo e leva consigo o consumidor. Com esta oportunidade de reinvenção, impõe-se a necessidade de voltar a agarrar as pessoas. A moda não tem de ser rápida, porque nós também não somos.
Artigo criado em contexto académico e posteriormente publicado numa revista multimédia, também desenvolvida em contexto académico. Para ter acesso à publicação devidamente editada, por favor contacte-me.








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